segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Adriana Calcanhotto - Do fundo do meu coração



Estou voltando... Tateando... Devagar...Sem pressa.
Como quem acorda de um longo sono... Atordoada me procuro.
Onde estive amei sozinha. Perdi-me. Paralisei sem sonhos. Sem dignidade.
Fui meu carrasco. Puni-me e paguei por erros que não eram meus.
Vivi num tempo que não me pertencia. Onde minha alma nunca coube.
Permissiva... Trai-me.
Os versos desbotaram com o tempo. Não foram lidos. Esquecidos agonizaram e fugidios deixaram de existir e levaram minha existência com eles. Fui apenas um espectro de mim mesma. Um vulto, uma sombra... Tanto tempo escondido atrás de um sol sem brilho suplicando migalhas de amor. Tantas estradas incertas e vazias.
 De repente... O amor pediu um tempo. Tempo... Ah o tempo! Amigo tempo. Atordoada,  concordei. E o dia amanheceu... Como um milagre, acordei daquela noite tenebrosa que meu amor me conduziu. Estava tudo fora do lugar. Uma saudade imensa invadiu minha vida... Saudade... Saudade de mim mesma. Saudade de tudo que me roubei. Devagar despertei... E para minha surpresa todos os meus sonhos estavam ali, ainda que maltratados, um a um foram despertando dentro da minha alma... E assim a vida amanheceu. São tantos planos e sonhos fervilhando, uma vida tão ampla pela frente que mal consigo harmonizar meus próximos passos.
Meu coração pulsa em descompasso desde o instante em que fora invadido pela esperança de uma vida mais suave e verdadeira.
Feliz daquele que pacientemente cede um tempo ao amor, permite que ele parta, e vivencia esse reencontro consigo mesma... Deixo aqui meu pedido de desculpas ao amor. Sinto muito por não aguardar por seu retorno. Mas, preciso ser feliz. Devo isso a mim mesma. Preciso de um amor que me ame. Ser vista,aceita e cuidada. De um amor que saiba ser amado,que transborde e ilumine. Que saiba sair de si e entregar-se. Um amor que surpreenda tanto quanto esse reencontro comigo mesma. Um amor verdadeiro que não se quebra, nem abandona. Um amor que deixa saudades e recordações. Um amor que não apaga.

Cristina Vianna.