sábado, 8 de novembro de 2008

És ternura e poesia


És ternura e poesia em minha vida. Partilhamos a dor, solidão, silêncio e alegria. Fizeste-me sentir especial quando acolhestes meus sonhos, não ristes dos meus devaneios, e me permitiu sonhar ao seu lado. Aprendi contigo a ver estrelas em noites chuvosas.”Elas estão lá, apenas não podemos vê-las hoje”. Em minhas noites solitárias e cheias de dúvidas, lembro-me de ti com teus olhinhos inocentes, que me olham como eu fosse algo especial. Nunca chamastes minha humanidade de burrice, minha força de loucura e nunca dissestes que tenho um gosto estragado. Creio que em algum momento desta vida, Deus quis que eu te encontrasse, como ir ao encontro de um oásis acolhedor. Te entregas como uma menina em meus braços, para que eu diga baixinho em teu ouvido o quanto te amo e és importante para mim. E quando dizes meu nome: Tereza Cristina, ele soa bonito como uma canção, forte como um rochedo e doce como o amor. Não é fácil deixar-te sem olhar para trás, não é nada fácil ir embora sem te levar comigo. Estás muito distante de ser um número no prontuário. E porque muito te amo, ainda que não consigas compreender as razões, e eu tenha tantas vezes que explicar: Amor não se explica apenas se senti e ponto. Dizes que precisas de mim e o quanto te faço bem, mas quando digo que preciso de ti, perguntas : Quem precisa de uma velha leprosa? Eu preciso. Não me importo com tuas chagas, porque quem se entrega em meu abraço é uma alma pura que não encontro no mundo de cá. Porque quando me abraças, minha solidão vai embora. E quando me olhas, sinto-me uma estrela brilhante, pelo sorriso que provoco. Não tens idéia do quanto me devolvestes a alegria de viver com aquela resposta a enfermeira. Ela perguntou: É da tua família Tiloca? - Não, é bem mais do que da minha família, é um amor verdadeiro, sem limites ou obrigações de existir. Penso o mesmo de ti. O que tenho para te dar, não vai quebrar, amassar ou enferrujar, porque o que tenho para te dar é amor.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Bens Brother - Let Me Out

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinícius de Moraes

Um poeta de nossa casa - Daniel de Sá



Emanuel Félix, o retrato possível As suas mãos vencem o tempo. Saram as feridas que ele deixa em telas antigas, e não fica um rasto sequer da passagem delas pelo quadro. Assim passa ele na vida, poeta quase místico dos sentimentos profanos, reconstruindo a pureza da existência para que a não fira a espada de fogo que sela os portões do paraíso original onde tudo começa. Por isso amou as raparigas lá de casa e fez que os anjos sujassem as sandálias num presépio de Belém, sem sombra de pecado. As palavras, gastas de séculos ou de milénios, na sua boca parecem sempre acabadas de inventar. Felizes aqueles que o seu verbo toca, porque há nele um sabor constante de novidade, como se todos os frutos apenas revelassem a infinita sabedoria da bondade.



Daniel de Sá e Emanuel Félix
(O poema foi lido pelo Sidónio Bettencourt, na Rádio Difusão dos Açores, na última entrevista que o Emanuel Félix concedeu a rádio)
Um Poeta da nossa casa
(Paráfrase sobre um poema de Emanuel Félix)

Como eu amo este poeta cá de casa!
(Da nossa casa, concha nove vezes repetida.)

Discreto fabricante de palavras,
Guarda o seu sonho como se guardasse o nosso,
Como se lhe tivéssemos dado todos os poderes
De dizer o que haveríamos de dizer
Se o pudéssemos dizer.
Como se nascesse nos seus versos
O canto mudo da nossa casa nove vezes calada,
Nove vezes cercada antes da própria fala.
Nulo é o chão sob os seus pés
Que anunciam a paz enquanto se ouvem palavras
Tão suaves como todos os silêncios.
E fica um rastro suave de bondade,
Como um cheiro de pão quente
E de leite acabado de ordenhar.
E qualquer hora do dia é sempre madrugada,
Quando escutamos a inquieta maresia
Onde começam as viagens possíveis
Com santo e senha leves e frescos
Como as folhas na Primavera.
Não sabemos a cor dos seus olhos,
Mas sabemos que neles também se acende o sol
Quando as sombras pousam
Sobre a concha nove vezes repetida.

Esse o destino dos que anunciam a paz,
Com o talento imenso da bondade
E a bondade imensa do talento.

(De vez em quando
Deus tem momentos de generosidade como este:
Repete o Seu gesto criador do sexto dia
E dá-nos, sem que o saibamos merecer,
Um Homem assim.)
Daniel de Sá.







quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Metade - Adriana Calcanhoto

Esperamos ,imaginamos e nos sentimos tolos,como marionetes de um destino cruel.
Para tudo! Eu quero descer,conceder-me o direito a escolhas,sair de mim ,esquecer quem sou.
Preferia estar em qualquer lugar onde não soubessem nem mesmo o meu nome, do que estar aqui em meio a minha derrota secreta e silenciosa. Preciso vencer-me, porque por outros fui vencida.
Quem um dia imaginou ouvir-me dizendo isso?
Ainda tenho forças para dizer:Para tudo!Quero descer.Não vou fazer este papel.
Nunca consigo descer deste palco.
Não anuncie o próximo ato,não estarei aqui para representar este papel...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Daniel de Sá - Ponta Delgada




Ponta Delgada, uma velha e bela cidade. O viajante pensa que ela cresceu ou tentou crescer muito depressa. O seu drama é o de todas as urbes que são as mais importantes da região onde se encontram. Tudo o que é novo há-de acontecer lá, há-de lá ir parar. Muitas vezes sem tempo para adaptações. E o pior foi que Ponta Delgada tentou primeiro crescer por dentro. Ponta Delgada, uma velha e bela cidade que o século XX não soube respeitar.

Pôs-se o novo ao lado do antigo. Pior, muitas vezes, deitou-se abaixo o antigo para erguer o moderno. Ponta Delgada era uma cidade onde os mercadores tinham tanta importância que há até uma antiquíssima rua que pelo nome lhes é dedicada. O centro histórico era o paraíso dessa maneira tradicional de vender e mercar. Mas, depois do cerco interior dos grandes armazéns, de todos os serviços públicos, do reboliço da vida concentrado em meia dúzia de ruas feitas para carroças e coches, a vida essencial da cidade mudou-se para a periferia. Aquela espécie de mercado árabe de tecto fechado, que gravitava nunca longe da Matriz, transferiu-se para grandes fortalezas de cimento e ferro onde se concentram as lojas de tudo. De um tudo sempre pronto a vestir ou a comer.

O viajante sente Ponta Delgada como um ser vivo. As noites da Imaculada Conceição eram um esplendor de luz e de criatividade em muitas dezenas de montras arrojadamente ornamentadas para comemorar o dia do comércio citadino. Com poucas excepções, são agora um cântico triste que não disfarça a vida que se perdeu dentro para a mudar para fora. Onde ela se esvai na monotonia da imitação de todas as cidades que querem parecer grandes.

Quando, num filme, o realizador quer dar a impressão de que se está num tempo antigo, o cenário é feito de casas velhas, meio derruídas umas, descoloridas todas. Mas, nesse tempo antigo, tais casas estariam sem dúvida completas, luzindo em cores novas e brilhantes. Ponta Delgada não ruiu nem perdeu a cor. Mas fizeram-na desistir de ser o que era. E, agora, um agora com várias décadas já, não há maquilhagem que devolva à bela dama a sua aparência ancestral. A ânsia de lhe encastoar modernices levou ao exagero de mudar, pedra por pedra, a ermida da Trindade para ao pé da entrada do jardim de António Borges. E foi posta uma bomba de gasolina no lugar onde ela estava.

No entanto, em Ponta Delgada ainda há muito para ver. Ainda há muito para amar. Foi no seu Liceu que o viajante, que nunca soube desenhar, fez prova de que sabia as outras coisas mais ou menos bem. E também por lá andou a tentar aprender essa difícil arte de ensinar. Como muitos outros, chegou a querer completar os conhecimentos com a iluminação divina, que muitos iam pedir de joelhos à porta da igreja do convento da Esperança. Para que o Senhor não se esquecesse, não faltava quem deixasse recado, escrito a lápis na tinta verde da madeira daquela porta. “Senhor Santo Cristo dos Milagres, ajuda-me no exercício de Francês.” “Senhor Santo Cristo, ajuda-me no exame de matemática.” E outros pedidos do género. Havia-os também mais aflitivos, de vida ou de morte.
Este Senhor Santo Cristo dos Milagres é devoção antiga. A belíssima imagem veio do convento da Caloura. Depois de uma primeira procissão em 1698, de visita a outros conventos de Ponta Delgada, a sua festa, hoje, é a maior destas ilhas. A igreja é igualmente muito bela. No lado poente da praça, a igreja de S. José, que foi do convento franciscano, é um monumento de grandes proporções e magníficos altares.

Como em toda a parte nestas ilhas, são os templos e conventos antigos o que há de mais belo para contemplar. A igreja daquele que foi o Colégio dos Jesuítas está hoje transformada num museu de arte sacra. Faltam-lhe alguns altares, um deles oferecido à igreja de Santa Luzia, nas Feteiras do Sul, como prémio por umas eleições que o partido regenerador lá ganhou. Ainda assim, a exuberância da talha de madeira é fascinante. O colégio foi adaptado a biblioteca pública. Para nascente, outro belo exemplar barroco, a igreja de S. Pedro, que foi capela real enquanto D. Pedro IV esteve por cá. E há o convento de Santo André, feito museu de generalidades, mas em que se destacam as colecções de pintura e de história natural. O viajante sente um fascínio tal pelo coro alto da sua igreja, que com frequência sonha que está naquele espaço de oiros e mistérios.

Passeando sem pressa nem mapa por Ponta Delgada, encontra-se, no entanto, uma ou outra surpresa agradável. Uma velha ruela que permaneceu intacta, ou quase; um palacete do tempo da riqueza da exportação da laranja, que fez fortunas e barões; um recanto que pode assemelhar-se a uma aldeia que se tivesse intrometido na cidade, sem perder o ar rústico das casas nem das pessoas.

Foi a sul que Ponta Delgada mais se descaracterizou a partir da década de 1940. O Estado Novo quis mostrar obra, e roubou ao mar espaço para inventar uma praça, onde havia um cais de embarque, e abrir uma avenida. Porque as praças e as avenidas eram alguns dos símbolos da propaganda do regime. Depois, não foi possível imaginar uma maneira de recuar na metamorfose. Ou de parar, pelo menos. Até ao aterro de uma das memórias mais expressivas de Ponta Delgada, a Calheta de Pêro de Teive, lugar de pescadores desde tempos imemoriais. A avenida acabou por acolher um pouco de tudo. Estilos de época e estilos de arquitecto. Cada qual interessado apenas na sua maqueta sem olhar à volta. Mas, quando a noite envolve a cidade, o espectáculo das luzes acaba por dar uma estranha beleza àquele espaço. Como que o reabilita, como que o justifica. Desde a fortaleza de S. Brás até ao moderno cais de cruzeiros das Portas do Mar, onde atracam navios que trazem gente de todo o Mundo. E que pode levar desta cidade só belas recordações. Se a alma servir de guia.

(De um texto para um livro turístico a publicar pela Ver Açor.)

Maria Eduarda - Três meses.













"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.
Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...
- Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza é invisível!
- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.
Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...
Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme..." Eu o pressentia então mais frágil ainda. É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...
E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando."
(Pequeno Príncipe ;Antoine de Saint-Exupéry )





segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A vontade do amor.



Madrugada fria,
Não suspeitas que te escrevo.
Contorço-me
Faço a vontade do amor
Um pouco tarde
Talvez em vão.
Há um duelo dentro de mim
Entre o medo de ferir
E de ferir-se.
Medo de vencer
E ser vencido.
Neste duelo reside minha angústia.
Quero fugir de mim
Enfrentar-me
Sair de mim
Conter-me.
Mergulho no amor,
Com a mesma voracidade
Em que mergulhei no medo.
Ao amanhecer estarei sozinha
derramarei minha angústia num papel,
Vou sofrer tua ausência,
E falta de amor por mim,
E confessar:
É doce e
cruel amar-te assim.



Cristina Vianna