sábado, 8 de novembro de 2008
És ternura e poesia
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Bens Brother - Let Me Out
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinícius de Moraes
Um poeta de nossa casa - Daniel de Sá

Daniel de Sá e Emanuel Félix (Paráfrase sobre um poema de Emanuel Félix)
Como eu amo este poeta cá de casa!
(Da nossa casa, concha nove vezes repetida.)
Discreto fabricante de palavras,
Guarda o seu sonho como se guardasse o nosso,
Como se lhe tivéssemos dado todos os poderes
De dizer o que haveríamos de dizer
Se o pudéssemos dizer.
Como se nascesse nos seus versos
O canto mudo da nossa casa nove vezes calada,
Nove vezes cercada antes da própria fala.
Nulo é o chão sob os seus pés
Que anunciam a paz enquanto se ouvem palavras
Tão suaves como todos os silêncios.
E fica um rastro suave de bondade,
Como um cheiro de pão quente
E de leite acabado de ordenhar.
E qualquer hora do dia é sempre madrugada,
Quando escutamos a inquieta maresia
Onde começam as viagens possíveis
Com santo e senha leves e frescos
Como as folhas na Primavera.
Não sabemos a cor dos seus olhos,
Mas sabemos que neles também se acende o sol
Quando as sombras pousam
Sobre a concha nove vezes repetida.
Esse o destino dos que anunciam a paz,
Com o talento imenso da bondade
E a bondade imensa do talento.
(De vez em quando
Deus tem momentos de generosidade como este:
Repete o Seu gesto criador do sexto dia
E dá-nos, sem que o saibamos merecer,
Um Homem assim.)
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Metade - Adriana Calcanhoto
Esperamos ,imaginamos e nos sentimos tolos,como marionetes de um destino cruel.
Para tudo! Eu quero descer,conceder-me o direito a escolhas,sair de mim ,esquecer quem sou.
Preferia estar em qualquer lugar onde não soubessem nem mesmo o meu nome, do que estar aqui em meio a minha derrota secreta e silenciosa. Preciso vencer-me, porque por outros fui vencida.
Quem um dia imaginou ouvir-me dizendo isso?
Ainda tenho forças para dizer:Para tudo!Quero descer.Não vou fazer este papel.
Nunca consigo descer deste palco.
Não anuncie o próximo ato,não estarei aqui para representar este papel...
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Daniel de Sá - Ponta Delgada

Este Senhor Santo Cristo dos Milagres é devoção antiga. A belíssima imagem veio do convento da Caloura. Depois de uma primeira procissão em 1698, de visita a outros conventos de Ponta Delgada, a sua festa, hoje, é a maior destas ilhas. A igreja é igualmente muito bela. No lado poente da praça, a igreja de S. José, que foi do convento franciscano, é um monumento de grandes proporções e magníficos altares.
Maria Eduarda - Três meses.
"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.
Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...
- Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza é invisível!
- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.
Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...
Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme..." Eu o pressentia então mais frágil ainda. É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...
E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando."
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
A vontade do amor.

Madrugada fria,
Não suspeitas que te escrevo.
Contorço-me
Faço a vontade do amor
Um pouco tarde
Talvez em vão.
Há um duelo dentro de mim
Entre o medo de ferir
E de ferir-se.
Medo de vencer
E ser vencido.
Neste duelo reside minha angústia.
Quero fugir de mim
Enfrentar-me
Sair de mim
Conter-me.
Mergulho no amor,
Com a mesma voracidade
Em que mergulhei no medo.
Ao amanhecer estarei sozinha
derramarei minha angústia num papel,
Vou sofrer tua ausência,
E falta de amor por mim,
E confessar:
É doce e
cruel amar-te assim.
Cristina Vianna