Eu estava voando...
Há um livro que não li.
Há uma foto que não revelei.
Um filme que não assisti o final...
Há muitas coisas assim.Mas,o que importa é que estavam lá,e que existiram de verdade.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
CLIP COM A TRADUÇÃO DE
Beatriz - Ana Carolina
Atriz
De tantos disfarces me visto.
De gestos e gritos, vozes, vestidos.
Fujo de relógios e me envolvo
em cortinas de silêncio.
Lanço dados sem números.
Erro o passo e me aprumo.
Apóio-me em frágeis amores,
falsas bengalas.
Dou-me, renego e volto ao ninho.
Desterro-me,
por amor me degredo.
Provoco minha própria história.
Artesã dos meus dias,
invento falas, mas
aceito desenhos e diálogos.
Desmonto possibilidades.
Faço e me desfaço.
Choro de rir,
mergulho em lágrimas.
Lavo-me. Limpa,
volto aos dias claros.
Renasço das águas,
pobre Afrodite
no tablado da vida,
Fecho as cortinas,
até o novo dia.
Saramar Mendes
domingo, 9 de novembro de 2008
O Concelho Grande - Daniel de Sá

Daniel nos leva no coração deste viajante ao Concelho Grande, numa viagem metafísica, onde as imagens fotográficas tornam-se registros frágeis, por não conseguirem captar os sentidos, onde cores e formas sem cheiro, sem o pulsar daquela terra, não são detectáveis em sua totalidade. Sabemos que recordações são registros de uma memória ímpar, e só nos apropriamos delas, se formos nós a fabricá-las.
O inexplicável é o que acontece dentro de cada um de nós que acompanhamos este viajante conduzido pela literatura de Daniel. Podemos sentir o que nos descreve, como se fossem nossos próprios passos que levantam a poeira naquelas estradas. Chegamos mesmo a duvidar que não estivesse por lá. A força desta literatura capaz de nos dar as coordenadas do vento, a temperatura das manhãs, e as impressões mais secretas que povoam a mente do “viajante” ou são as nossas?
O viajante sabe que os cheiros completam as cores da paisagem como as cores completam as formas. Dos cheiros antigos que hoje faltam o que mais falta lhe faz é o dos trigais. Um cheiro quente que antecipava o do pão no forno. Um cheiro sensual, na ondulação das espigas trigueiras, com salpicos de papoilas incandescentes como sinais de virgindade. Lugares perfeitos para amores proibidos ou envergonhados.
sábado, 8 de novembro de 2008
Flávio Venturini - Todo Azul Do Mar
Foi assim
Como ver o mar
A primeira vez
Que meus olhos
Se viram no seu olhar
Não tive a intenção
De me apaixonar
Mera distração e já era
Momento de se gostar
Quando eu dei por mim
Nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu
Dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei
No azul do mar
Sabia que era amor
E vinha pra ficar
Daria pra pintar
Todo azul do céu
Dava pra encher o universo
Da vida que eu quis pra mim
Tudo que eu fiz
Foi me confessar
Escravo(a) do seu amor
Livre para amar
Quando eu mergulhei
Fundo nesse olhar
Fui dono do mar azul
De todo azul do mar
Foi assim como ver o mar
Foi a primeira vez que eu vi o mar
Onda azul, todo azul do mar
Daria pra beber todo azul do mar
Foi quando mergulhei no azul do mar
Onda que vem azul, todo azul do mar
És ternura e poesia
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Bens Brother - Let Me Out
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinícius de Moraes
Um poeta de nossa casa - Daniel de Sá

Daniel de Sá e Emanuel Félix (Paráfrase sobre um poema de Emanuel Félix)
Como eu amo este poeta cá de casa!
(Da nossa casa, concha nove vezes repetida.)
Discreto fabricante de palavras,
Guarda o seu sonho como se guardasse o nosso,
Como se lhe tivéssemos dado todos os poderes
De dizer o que haveríamos de dizer
Se o pudéssemos dizer.
Como se nascesse nos seus versos
O canto mudo da nossa casa nove vezes calada,
Nove vezes cercada antes da própria fala.
Nulo é o chão sob os seus pés
Que anunciam a paz enquanto se ouvem palavras
Tão suaves como todos os silêncios.
E fica um rastro suave de bondade,
Como um cheiro de pão quente
E de leite acabado de ordenhar.
E qualquer hora do dia é sempre madrugada,
Quando escutamos a inquieta maresia
Onde começam as viagens possíveis
Com santo e senha leves e frescos
Como as folhas na Primavera.
Não sabemos a cor dos seus olhos,
Mas sabemos que neles também se acende o sol
Quando as sombras pousam
Sobre a concha nove vezes repetida.
Esse o destino dos que anunciam a paz,
Com o talento imenso da bondade
E a bondade imensa do talento.
(De vez em quando
Deus tem momentos de generosidade como este:
Repete o Seu gesto criador do sexto dia
E dá-nos, sem que o saibamos merecer,
Um Homem assim.)