quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Metade - Adriana Calcanhoto

Esperamos ,imaginamos e nos sentimos tolos,como marionetes de um destino cruel.
Para tudo! Eu quero descer,conceder-me o direito a escolhas,sair de mim ,esquecer quem sou.
Preferia estar em qualquer lugar onde não soubessem nem mesmo o meu nome, do que estar aqui em meio a minha derrota secreta e silenciosa. Preciso vencer-me, porque por outros fui vencida.
Quem um dia imaginou ouvir-me dizendo isso?
Ainda tenho forças para dizer:Para tudo!Quero descer.Não vou fazer este papel.
Nunca consigo descer deste palco.
Não anuncie o próximo ato,não estarei aqui para representar este papel...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Daniel de Sá - Ponta Delgada




Ponta Delgada, uma velha e bela cidade. O viajante pensa que ela cresceu ou tentou crescer muito depressa. O seu drama é o de todas as urbes que são as mais importantes da região onde se encontram. Tudo o que é novo há-de acontecer lá, há-de lá ir parar. Muitas vezes sem tempo para adaptações. E o pior foi que Ponta Delgada tentou primeiro crescer por dentro. Ponta Delgada, uma velha e bela cidade que o século XX não soube respeitar.

Pôs-se o novo ao lado do antigo. Pior, muitas vezes, deitou-se abaixo o antigo para erguer o moderno. Ponta Delgada era uma cidade onde os mercadores tinham tanta importância que há até uma antiquíssima rua que pelo nome lhes é dedicada. O centro histórico era o paraíso dessa maneira tradicional de vender e mercar. Mas, depois do cerco interior dos grandes armazéns, de todos os serviços públicos, do reboliço da vida concentrado em meia dúzia de ruas feitas para carroças e coches, a vida essencial da cidade mudou-se para a periferia. Aquela espécie de mercado árabe de tecto fechado, que gravitava nunca longe da Matriz, transferiu-se para grandes fortalezas de cimento e ferro onde se concentram as lojas de tudo. De um tudo sempre pronto a vestir ou a comer.

O viajante sente Ponta Delgada como um ser vivo. As noites da Imaculada Conceição eram um esplendor de luz e de criatividade em muitas dezenas de montras arrojadamente ornamentadas para comemorar o dia do comércio citadino. Com poucas excepções, são agora um cântico triste que não disfarça a vida que se perdeu dentro para a mudar para fora. Onde ela se esvai na monotonia da imitação de todas as cidades que querem parecer grandes.

Quando, num filme, o realizador quer dar a impressão de que se está num tempo antigo, o cenário é feito de casas velhas, meio derruídas umas, descoloridas todas. Mas, nesse tempo antigo, tais casas estariam sem dúvida completas, luzindo em cores novas e brilhantes. Ponta Delgada não ruiu nem perdeu a cor. Mas fizeram-na desistir de ser o que era. E, agora, um agora com várias décadas já, não há maquilhagem que devolva à bela dama a sua aparência ancestral. A ânsia de lhe encastoar modernices levou ao exagero de mudar, pedra por pedra, a ermida da Trindade para ao pé da entrada do jardim de António Borges. E foi posta uma bomba de gasolina no lugar onde ela estava.

No entanto, em Ponta Delgada ainda há muito para ver. Ainda há muito para amar. Foi no seu Liceu que o viajante, que nunca soube desenhar, fez prova de que sabia as outras coisas mais ou menos bem. E também por lá andou a tentar aprender essa difícil arte de ensinar. Como muitos outros, chegou a querer completar os conhecimentos com a iluminação divina, que muitos iam pedir de joelhos à porta da igreja do convento da Esperança. Para que o Senhor não se esquecesse, não faltava quem deixasse recado, escrito a lápis na tinta verde da madeira daquela porta. “Senhor Santo Cristo dos Milagres, ajuda-me no exercício de Francês.” “Senhor Santo Cristo, ajuda-me no exame de matemática.” E outros pedidos do género. Havia-os também mais aflitivos, de vida ou de morte.
Este Senhor Santo Cristo dos Milagres é devoção antiga. A belíssima imagem veio do convento da Caloura. Depois de uma primeira procissão em 1698, de visita a outros conventos de Ponta Delgada, a sua festa, hoje, é a maior destas ilhas. A igreja é igualmente muito bela. No lado poente da praça, a igreja de S. José, que foi do convento franciscano, é um monumento de grandes proporções e magníficos altares.

Como em toda a parte nestas ilhas, são os templos e conventos antigos o que há de mais belo para contemplar. A igreja daquele que foi o Colégio dos Jesuítas está hoje transformada num museu de arte sacra. Faltam-lhe alguns altares, um deles oferecido à igreja de Santa Luzia, nas Feteiras do Sul, como prémio por umas eleições que o partido regenerador lá ganhou. Ainda assim, a exuberância da talha de madeira é fascinante. O colégio foi adaptado a biblioteca pública. Para nascente, outro belo exemplar barroco, a igreja de S. Pedro, que foi capela real enquanto D. Pedro IV esteve por cá. E há o convento de Santo André, feito museu de generalidades, mas em que se destacam as colecções de pintura e de história natural. O viajante sente um fascínio tal pelo coro alto da sua igreja, que com frequência sonha que está naquele espaço de oiros e mistérios.

Passeando sem pressa nem mapa por Ponta Delgada, encontra-se, no entanto, uma ou outra surpresa agradável. Uma velha ruela que permaneceu intacta, ou quase; um palacete do tempo da riqueza da exportação da laranja, que fez fortunas e barões; um recanto que pode assemelhar-se a uma aldeia que se tivesse intrometido na cidade, sem perder o ar rústico das casas nem das pessoas.

Foi a sul que Ponta Delgada mais se descaracterizou a partir da década de 1940. O Estado Novo quis mostrar obra, e roubou ao mar espaço para inventar uma praça, onde havia um cais de embarque, e abrir uma avenida. Porque as praças e as avenidas eram alguns dos símbolos da propaganda do regime. Depois, não foi possível imaginar uma maneira de recuar na metamorfose. Ou de parar, pelo menos. Até ao aterro de uma das memórias mais expressivas de Ponta Delgada, a Calheta de Pêro de Teive, lugar de pescadores desde tempos imemoriais. A avenida acabou por acolher um pouco de tudo. Estilos de época e estilos de arquitecto. Cada qual interessado apenas na sua maqueta sem olhar à volta. Mas, quando a noite envolve a cidade, o espectáculo das luzes acaba por dar uma estranha beleza àquele espaço. Como que o reabilita, como que o justifica. Desde a fortaleza de S. Brás até ao moderno cais de cruzeiros das Portas do Mar, onde atracam navios que trazem gente de todo o Mundo. E que pode levar desta cidade só belas recordações. Se a alma servir de guia.

(De um texto para um livro turístico a publicar pela Ver Açor.)

Maria Eduarda - Três meses.













"O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.
Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...
- Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza é invisível!
- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.
Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...
Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme..." Eu o pressentia então mais frágil ainda. É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...
E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando."
(Pequeno Príncipe ;Antoine de Saint-Exupéry )





segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A vontade do amor.



Madrugada fria,
Não suspeitas que te escrevo.
Contorço-me
Faço a vontade do amor
Um pouco tarde
Talvez em vão.
Há um duelo dentro de mim
Entre o medo de ferir
E de ferir-se.
Medo de vencer
E ser vencido.
Neste duelo reside minha angústia.
Quero fugir de mim
Enfrentar-me
Sair de mim
Conter-me.
Mergulho no amor,
Com a mesma voracidade
Em que mergulhei no medo.
Ao amanhecer estarei sozinha
derramarei minha angústia num papel,
Vou sofrer tua ausência,
E falta de amor por mim,
E confessar:
É doce e
cruel amar-te assim.



Cristina Vianna

sinonimos- Chitaõzinho e chorroro zé ramalho

"O prazer do amor é amar e sentirmos-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos."

La Rochefoucauld,François

domingo, 2 de novembro de 2008

Incidente diplomático no Campeche.




A servidão passa a chamar-se :Vila Desarmonia.
Olha só... Avaliem a situação. Tudo na mesma semana.
Quarta-feira à noite, Campeonato Brasileiro de futebol: Botafogo x São Paulo.
Eu Botafoguense. Ele, o pé frio, companheiro “adversário”, São Paulino.
Vou para o computador enquanto o jogo acontece, estou ouvindo o jogo, e para não dar muita confiança, finjo ignorar a situação. O que não vou esquecer é que anularam um gol do Botafogo. Fim de jogo: vitória para o São Paulo.
Tudo bem. Mas, roubaram um gol do Botafogo. Espero a gozação. Não veio. Estranhei. Estava tudo muito calmo. Na verdade, para variar fui dormir às quatro da manhã. Sem tocar no tal assunto. Não vão acreditar. Sei que é difícil mesmo acreditar . Fui acordada às seis da manhã, ou seja, duas horas depois, no melhor do sono, por alguém que sorria ao meu lado dizendo: Teu time perdeu ontem.
Pela forma criativa até achei graça. Até que ele completasse a frase: Para o meu São Paulo
.
Olha, aquele meu São Paulo, mais aquele sorriso debochado,mais aquela hora da manhã...Só respirando bem fundo,e contando até dez, para não fazer nenhum gesto ofensivo.
Ele percebeu o perigo.
Estou indo. E saiu bem depressa.
Pensei comigo: Será um dia longo. É melhor voltar a dormir.Consegui este feito por mais uma hora, até que meu distinto pedreiro resolvesse bater em minha porta do quarto para chamar bem feliz: D.Cristiiiiiiiiiiiiiina. Bom dia.
Eu já pensei :se ele disser que meu time perdeu ontem não vou segurar os gestos ofensivos. Mas comunicou que iria lavar o telhado e isso significava chover em meu quarto.
Tudo bem,o dia estava apenas começando e não me deixaram dormir. Definitivamente fora um dia muuuuuuuuuuuuuuito longo. Para poupar-me de futuros e previsíveis aborrecimentos, desliguei o celular, para não receber os torpedos (mensagens) que certamente chegariam de hora em hora para me recordar: Seu time perdeu ontem.
Resolvi que não atenderia também ao telefone, e nem abriria mensagens de e-mail vindas de um tal poeta Augusto. Certamente construiria quadrinhas com o tema : Seu time perdeu ontem.-Naquela quinta-feira ainda chegou mais cedo em casa para me incomodar,trazendo para me ofertar uma barra de chocolate Diamante Negro,já explico,ele não é bonzinho, e muito menos desejava acalmar a situação, estava tudo planejado: Diamante Negro era o apelido do jogador do São Paulo que atormentava a defesa do Botafogo. Estão vendo não é?
Não pensem que acabou. Ainda tem a sexta-feira.
Ele combinou com o pedreiro para me acordar cedinho falando: Bom dia D.Cristina, hoje a senhora não precisa sair do quarto vou trabalhar lá fora.
Fiquei olhando um tempo para ele com aquela expressão: Sim. e daí? Por que então me acordou?
Ele respondeu: É que tenho uma curiosidade.
Pensei comigo: Ninguém merece, definitivamente ele não reza . Fui dormir novamente às quatro da manhã para ser acordada no melhor do sono num dia de chuva para saciar a curiosidade do meu estimado pedreiro. Percebi que coisa boa não era, pois havia um brilho diferente em seus olhos e um sorriso maroto. Respirei fundo, pensei na boa educação que mamãe me deu e suavemente perguntei: Qual é a dúvida? Preciso voltar a dormir. Vocês não vão acreditar. Sabe qual era a dúvida?
Ele com muita coragem perguntou: Qual foi o resultado de quarta feira do jogo São Paulo X Botafogo? Não acreditei. Pensei: Isso deve ser um pesadelo, não acordei ainda. Cheguei mesmo a me animar.Afinal, sendo um pesadelo poderia matar meu pedreiro.
Acontece que quando me dei conta de que estava mesmo acordada, ele já não estava lá para esperar a resposta.
Veio então o sábado. Trégua. Domingo cedo, o tal pé frio, sabotou o meu blog.
Tentou acabar com o meu humor já pela manhã.Tudo bem que tudo ocorreu pela madrugada.Eu o havia acordado. Era o mínimo que eu podia fazer com alguém que me torturou por dois dias. Quando fui protestar, nem se envergonhou disso, dava risadas dizendo: Meu cérebro estava desligado. Só faltava me lembrar: Seu time perdeu na quarta. O pior estava por vir.
Hoje, domingo, dia de finados, final de Campeonato Mundial de Fórmula I, pensei comigo: Ele vai torcer pelo Massa, ledo engano, é um traira.
Estava acompanhando a corrida, claro que também estava lendo o último capítulo de um romance, para não demonstrar muito interesse, e me estressar menos. Acontece que quando chegou à última volta, onde Massa antes da última curva era o campeão, percebi que a distinta criatura ao meu lado estava torcendo contra.
Eu dizia: Já deu.
Ele falava: Ainda falta uma última curva.
Gente, o pé frio estava certo.
Agora peço licença , vou sabotar a janta...
Ps.Amigos ajudem-me a mandar o pé frio para Iraque. Se houver interesse em adquiri-lo, deixo a disposição,com a ressalva de que não aceito reclamações e muito menos devolução.

Um pouquinho mais de Daniel de Sá.

... E o viajante delicia-se na viagem.Cada vez fica mais encantado e apaixonado pela Ilha, quando a desvenda através dos olhos doces e seguros de Daniel.
O viajante afirma e silencia: "Descobri coisas que apenas posso sentir, não há como explicar e muito menos alcançar entendimento." Cabe a mim,render-me e saborear.


Ribeira Grande

Ribeira Grande. Bons tempos viveu ali o viajante. Que o tinha de ser todos os dias, excepto ao Domingo. Para aprender umas letras e outras ciências, no externato. O almoço possível era quase sempre na travessa por onde Gaspar Frutuoso teria passado milhares de vezes. A caminho da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, de que era vigário. Homem culto, doutor por Salamanca, deixou a maior e quase única história que se conhece dos primeiros tempos de vida nestas ilhas. No salão nobre dos Paços do Concelho, há um painel de azulejos que lhe é dedicado e que sempre intrigou o viajante. O sacerdote é representado pregando no púlpito da sua igreja. O painel completa-se com umas alfaias agrícolas e uns símbolos da arte da escrita. E estas palavras como divisa: “Se eu soubera, não soubera.” Fácil de interpretar... Se Frutuoso tivesse aprendido a arte de cuidar da terra, não saberia a outra, a tal da escrita. Ou talvez não, quem sabe? E se aquela fosse uma confissão de que, se soubesse o que é o saber, preferiria não saber? Esse saber que nos torna cada vez mais conscientes da nossa ignorância, mais insatisfeitos. Esse saber que nos faz duvidar mais do que acreditar nas coisas que aprendemos.


Ao viajante vem com frequência essa tentação. Esse como que arrependimento de ter aprendido algo mais do que todos os meninos da sua terra que foram à pia do baptismo no mesmo ano que ele. Foi bom que Gaspar Frutuoso tivesse aprendido outros saberes, mais que de arado e sacho. Porque ele foi o único que contou coisas que, se não tivesse dito, ninguém saberia. Mas o viajante não aprendeu mais do que saberes já sabidos. As suas palavras não fazem falta sequer para uma visita de olhos cheios a este mundo aqui à volta. Ao viajante, a outro qualquer viajante, basta ir por aí acima e ver. O bailado das gaivotas na indizível lagoa do Fogo. A cascata de água quente da Caldeira Velha, que lhe fica a caminho. As outras fumarolas, ditas Caldeiras da Ribeira Grande. Os rochedos barrocos das Lombadas, com uma nascente de magnífica água mineral. A assombração do Monte Escuro. Ali, a terra ainda não teve tempo de disfarçar as mãos de fogo dos vulcões. E, apesar de tanto se ver da ilha lá em cima, o silêncio como que nos tapa a boca, proibindo a fala. Num certo ponto vê-se bem, mas mal se escuta, ao longe, uma cascata. Basta baixar a cabeça por detrás de umas queirós, que a altitude fez raquíticas, e já nada se ouve. Ou indo adiante, que não faltam sensações por aí fora. A ponta do Cintrão, arrojado cabo em miniatura; o miradouro de Santa Iria, de onde de repente se descobre como a ilha continua a desdobrar-se em dedos de terra entrando no mar, ou namoros do mar nas enseadas. E daquele lugar o viajante faz sempre um miradoiro também para a História. Foi nos montes à volta que se deu a última e maior refrega entre as tropas absolutistas e os liberais, que haviam desembarcado na Achadinha. Está logo à frente o Porto Formoso, com a sua praia que era o melhor ancoradoiro das bandas do Norte; e São Brás, rutilante; e a Maia, numa fajã vulcânica onde o sol falta menos vezes e o tempo é mais ameno do que longe dela; e a Lomba da Maia; e os Fenais da Ajuda, cuja elegante ponta anuncia, a nascente, que o concelho acaba pouco mais adiante, na Lomba de São Pedro.


Também o viajante entrou e ficou na igreja de Nossa Senhora da Estrela vezes sem conta. E ainda hoje, quando lá regressa, sente uma espécie de respeitoso temor. Aquele é um dos maiores templos dos Açores. Consta que, semelhantes, só a Sé de Angra e a igreja de São José, de Ponta Delgada. A devoção dos cristãos de outros tempos está bem expressa na profusão de altares. E a sua arte também, na abundante decoração. Ali se guarda o Arcano Místico, obra de Madre Margarida do Apocalipse. Informam-no agora de que, qualquer dia, irá para a casa onde ela viveu, depois que os liberais lhe fecharam, e às outras, as portas do convento, deixando-as fora.


Foi daquele lado da Ribeira que a povoação nasceu e começou a crescer, ainda no século XV. E, quando D. Manuel I a fez vila, por foral de quatro de Agosto de 1507, deu-lhe como limite uma légua em redor do pelourinho. Só no século XIX o concelho haveria de ganhar as dimensões que tem hoje.


Até ser elevada à categoria de cidade, em 1981, a Ribeira Grande era composta apenas pelas freguesias da Matriz e da Conceição. Nessa altura foram integradas nela as da Ribeira Seca e da Ribeirinha, e, mais tarde, a de Santa Bárbara.


Cerca de uma légua para ocidente fica Rabo de Peixe, freguesia tornada vila em 25 de Abril de 2004. Sendo a mais populosa, apesar de uma inexplicável fama contrária é também das mais ricas. O seu porto de pesca é dos mais importantes dos Açores, sendo a sua fruta e os seus produtos hortícolas de excelente qualidade. Era nesta freguesia que ficava o velho aeroporto, um simples pasto que alimentava vacas quando não havia manobras de aviões. Um pouco adiante, as Calhetas e, a completar o concelho e a meia dúzia de quilómetros de Ponta Delgada, o Pico da Pedra. A paisagem é geologicamente das mais recentes dos Açores. Se tudo ali fosse como há 50 000 anos, uns instante na evolução da Terra, o viajante não teria solo para pôr os pés. Então só havia mar entre o maciço das Sete Cidades e o da Serra de Água de Pau.

(De um texto para um livro turístico a publicar pela Ver Açor.)